Célula progenitora - Células Tronco: mitos e verdades
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| Dr.ª Erika Barros |
Imagine um mundo em que a paralisia não exista e que um simples enxerto de células devolveria os movimentos a quem sofreu lesão medular em função de acidente automobilístico, ferimento por tiro ou queda. Ou imagine, ainda, um mundo sem atrofiados musculares ou sem portadores da doença de Alzheimer ou do Mal de Parkinson... Sem doentes do fígado ou do coração... Esse é um mundo que promete passar do imaginário à realidade em poucos anos no Brasil.
As pesquisas sobre célula-tronco avançam e estão em
vias de serem uma experiência concretamente implementada em humanos, após
resultados positivos em experimentos de laboratório. Segundo a ortopedista e
traumatologista Érika M. Kalil Pessoa de Barros, chefe do Grupo de Coluna
Cervical do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), há vários
trabalhos paralelos voltados a pesquisa da cura da lesão medular e a experiência
com célula-tronco promete resultados muito positivos no sentido de se
substituir a célula morta de determinada região por tecido saudável. Érika
é também presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Lesão Medular.
Célula-tronco são células progenitoras, capazes de originar qualquer tipo
de célula no organismo, dependendo do meio em que se encontra. Até
recentemente encontrada apenas em embriões, trata-se, na verdade, da mais
importante célula do corpo humano, já que possui a capacidade de se
transformar em qualquer tecido ou órgão perfeitos. Simplificando, pegue uma
célula-tronco e implante-a num coração e ela se transforma em célula de
coração. Coloque-a num fígado e se transformará em célula de fígado; num
cérebro, e ela se torna uma célula cerebral. Essas células-tronco são
coletadas do sangue da pessoa, expandidas em cultura laboratorial e
reinjetadas perto do local da lesão, com o objetivo de que se transformem na
célula faltante. "Assim como células fetais originam um ser humano e
essas células se diferenciam pela localização em que se encontram dentro do
embrião, há células no corpo adulto que ainda guardam essa capacidade de se
desenvolver ou transformar em diferentes tipos de células, dependendo de onde
elas se encontram", explica a médica.
Segundo ela, é possível mobilizar essas células usando uma substância
administrada no paciente adulto: colhe-se a célula saudável, manipula-se com
substância química e reinjeta-se no organismo da mesma pessoa, no local onde
há lesão. O esperado é que essa célula manipulada reproduza-se,
substituindo a área lesada com o próprio tecido da pessoa. "Estamos
tentando pegar essa célula-tronco, trabalhar essa célula e devolver para o
próprio indivíduo, para essa célula interpor no local onde existe uma
falha, uma lesão, que substitua a função daquele tecido faltante",
destaca. Os médicos envolvidos nessa experiência esperam que a célula-tronco
implantada se diferencie no organismo, transformando-se na célula do tecido
em que foi implantada. "Em animais a gente percebe que essas células
acabam se diferenciando no próprio organismo, elas não precisam ser
diferenciadas antes, mas não sabemos como vai se comportar em humanos. Existe
uma série de possibilidades de falhas no processo, por exemplo, das células
não se diferenciarem da forma adequada no organismo. A gente já conseguiu
curar rato, mas apesar da dúvida, tenho certeza que vamos conseguir. Há
pesquisadores de altíssimo gabarito estudando isso", afirma.
A doutora Érika declara que não só os lesados medulares poderão ser
beneficiados. "Há cientistas usando em casos de infarto do miocárdio e
em doentes de Parkinson e Alzheimer, para substituir as células que
morreram", afirma.
A experiência com célula-tronco no Brasil deixa o campo da teoria e passa a
ser implementada na prática, ainda neste mês de abril, com um grupo de 30
lesados medulares. O procedimento foi aprovado pela comissão de ética ligada
ao Ministério da Saúde e os resultados devem sair em cerca de cinco anos.
"É uma linha muito promissora, estamos extremamente entusiasmados",
frisa a especialista.
Apesar do entusiasmo e das expectativas positivas, Érika destaca que não
acredita numa solução única, numa cura proveniente exclusivamente da reposição
da célula-tronco. "A expectativa é enorme, mas não existe uma garantia
absoluta de sucesso. Temos que ter cuidado ao passar as informações para os
portadores de deficiência que já tiveram tantas expectativas frustradas,
principalmente ao longo dos últimos dez anos", ressalta, acrescentando
otimista: "mas é uma linha bastante promissora".
Implicações Éticas