REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S.Paulo
Conexões nervosas na
medula espinhal que pareciam estar perdidas para sempre foram restauradas, graças
ao uso das células-tronco, em 12 paraplégicos e tetraplégicos. O estudo,
feito por pesquisadores da USP, no entanto, só conseguiu restaurar parte da
sensibilidade de membros paralisados havia anos.
"Isso abre perspectivas enormes", diz o ortopedista Tarcisio Barros,
50, da Faculdade de Medicina da USP. Barros e a coordenadora do estudo, a também
ortopedista Érika Kalil, já planejam ampliar o grupo de 30 pacientes que
recebeu, desde o ano passado, a infusão das células na área lesada de suas
medulas. "Como cada um deles recebeu as células-tronco em momentos
diferentes, não quer dizer que os outros também não possam apresentar
melhoras mais tarde", afirma o médico.
As células-tronco estão entre os componentes mais versáteis do organismo,
capazes de assumir a função de qualquer tecido. Esses curingas fisiológicos
estão presentes principalmente em embriões (variedade que parece ser a mais
potente) e na medula óssea, caso no qual compõem as chamadas células-tronco
adultas.
Foi essa a variedade empregada pelos pesquisadores da USP. Uma de suas
principais vantagens é evitar a rejeição, já que é extraída da própria
pessoa que depois vai recebê-la. No entanto, diferentemente de outros
procedimentos parecidos no mundo e no Brasil, os pesquisadores não extraíram
as células-curinga diretamente da medula óssea.
Batalhão atraído
Em vez disso, a equipe, com o auxílio dos médicos Dalton Chamone e Alfredo
Mendroni, "atraiu" as células-tronco para a corrente sanguínea dos
pacientes por meio de substâncias específicas e, depois, usou um
procedimento parecido com a hemodiálise para retirá-las do sangue (veja
quadro acima, à direita). Obtiveram um verdadeiro batalhão delas, cerca de
2,5 milhões para cada quilo de sangue dos pacientes.
Depois de ficarem estocadas por algum tempo em temperaturas baixas, as células
foram devolvidas aos pacientes. "Todos estavam com a situação
estabilizada, nenhuma motricidade [movimento] e nenhuma sensibilidade",
afirma Barros.
Com a ajuda de José Guilherme Caldas e Giovanni Cerri, do Departamento de
Radiologia Vascular Intervencionista da Faculdade de Medicina da USP, os
pesquisadores usaram aparelhos de ressonância magnética para identificar o
local exato da lesão na medula espinhal e conduzir as células-tronco até lá
por meio da artéria que o irrigava.
Dentro de alguns meses (num prazo que variava de paciente para paciente), a
situação começou a mudar de figura. Os cientistas aplicaram o teste de
potencial evocado, que procura medir o efeito de um estímulo elétrico no
corpo sobre o córtex cerebral.
Antes, diz Barros, todas as pessoas que passaram pela terapia tinham uma falha
nesse circuito, causada justamente pela lesão na medula espinhal que impedia
a comunicação com o cérebro. Nas 12 que já responderam ao tratamento, no
entanto, o estímulo ia adiante, como se a conexão estivesse restaurada. Mais
que isso: parte da sensibilidade retornou.
Para a psicóloga e publicitária Mara Gabrilli, 36, tetraplégica há nove
anos por causa de um acidente de carro, isso quis dizer, a princípio, uma
coisa: "Dor! Passei a sentir dor demais no bumbum ou nas pernas, quando
eu faço estimulação elétrica".
Por outro lado, a sensação de tato também ressurgiu, e ela diz que até se
sente fisicamente mais "encorpada". "É maravilhoso",
afirma Gabrilli, que hoje coordena a ONG Projeto Próximo Passo, que dá apoio
aos deficientes físicos e à pesquisa com células-tronco. A técnica de ginástica
olímpica Georgette Vidor, paraplégica, também passou por mudanças
positivas semelhantes depois de participar da terapia.
Apesar dos bons resultados, ainda faltam muitas perguntas a responder. Os
pesquisadores ainda não sabem, por exemplo, se são as próprias células-tronco
que se transformam em neurônios e reconstituem a ponte entre as áreas
intactas da medula, ou se elas apenas estimulam a passagem de impulsos
nervosos por ali.
"De qualquer maneira, quando você sabe que o impulso está passando,
pode usar abordagens auxiliares, como drogas que estimulem a transmissão, por
exemplo", diz Barros.
Por enquanto, o objetivo dos pesquisadores é acompanhar os pacientes que já
receberam as células e também aplicar a técnica em pessoas que acabaram de
sofrer lesões na medula. "Nesse caso, imaginamos que a chance de
recuperação seja maior", afirma o pesquisador da USP. O protocolo para
esse novo estudo já está aprovado pela Conep (Comissão Nacional de Ética
em Pesquisa).
Os resultados do primeiro grupo de pacientes serão apresentados no Encontro
Internacional sobre Células-Tronco, que acontece em São Paulo a partir do próximo
dia 13, e devem ser encaminhados em breve para publicação.