JORNAL NACIONAL 13/11/2003
Os
primeiros resultados práticos de pesquisas com células-tronco estão em
discussão em São Paulo. A ciência investiga os segredos dessas
células capazes de substituir tecidos e funções do organismo.
Todos os dias, Paulo de Tarso se prepara para um
momento muito especial -dar alguns passos. Eram impensáveis há cinco anos,
quando quebrou a espinha em um acidente de moto.
"Hoje o andar para mim é muito importante, quero é chegar até lá, até
o vidro, andando sozinho - é meu sonho", diz o empresário.
O sonho tornou-se possível graças a um tratamento com células-tronco, que
Paulo de Tarso iniciou há um ano.
Células-tronco estão entre os componentes mais versáteis do organismo. São
encontradas em embriões e na medula óssea de adultos. Podem assumir a função
de qualquer tecido.
No caso de Paulo de Tarso, células-tronco retiradas da medula óssea foram
injetadas através do sangue, e substituem, no local da lesão, as células
afetadas pelo acidente.
Ele não só recuperou a sensibilidade nas pernas, que agora reagem, por
exemplo, a impulsos elétricos. Consegue, pela primeira vez, movimentá-las um
pouco - incluindo o pé.
No caso de Paulo de Tarso, o tratamento com injeções de células-tronco trouxe
bons resultados em um período de tempo considerado muito curto. Mas os médicos
e especialistas advertem: isto não é um milagre, não é uma cura mágica.
Reunidos em um congresso sobre células-tronco em São Paulo, especialistas de várias
áreas da medicina ressaltaram que os notáveis avanços devem ser vistos com
cautela.
"Estes resultados abrem perspectivas de que possa haver alguma esperança,
mas ainda não representa soluções. Vai fazer parte de uma pequena peça de um
grande quebra-cabeça que tem que ser ainda solucionado," diz o ortopedista
Tarcísio Eloy de Barros.
Vale para a ciência o mesmo que para Paulo de Tarso: grandes progressos são
feitos de muitos pequenos passos.
"Eu volto a andar, não sei em quanto tempo eu volto, mas que eu volto, eu
volto", garante Paulo.
Durante o encontro em São Paulo, os cientistas aproveitaram para pedir ao
governo que facilite as pesquisas com células-tronco no Brasil. Eles consideram
que a legislação brasileira dificulta o desenvolvimento do setor.